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REVISTAREVISTA

Ásia diário de bordo
23/04/2012

Pedimos ao Fred que começasse a registrar, durante os voos entre uma cidade e outra, suas primeiras impressões, ou as mais marcantes, ou aquelas emocionantes – ou seja, um diário que falasse sobre design, sobre costumes e paisagens. Sobre a antiga e a nova Ásia

Fred Gelli

Taiwan

Acima, Fred Gelli com Min Wang, diretor da principal escola de design da China e responsável pela direção de design dos Jogos de Pequim 2008

Chegamos a Taipei e já no aeroporto sentimos o quanto o evento — 1ª Conferência IDA, Industrial Design Asia — era organizado. Meninas sorridentes e um cartaz com meu nome me esperavam. Outro conferencista, vindo da Bélgica, havia chegado comigo, no mesmo voo. Saímos conversando e com vontade de continuar o papo até o hotel, porém a superprodução do evento havia reservado uma BMW série 7 com motorista engravatado para cada um de nós, indo para o mesmo lugar, na mesma hora! Aquilo já não me pareceu um bom começo quanto aos aspectos sustentáveis do evento, mas fazer o quê? Aproveitar a rara mordomia que nós, pobres designers, temos neste mundo corporativo!

Colocaram-nos em um hotel luxuoso, bem em frente ao Taipei 101, um dos maiores prédios do mundo, com seus 526 m de altura! A visão da janela do meu quarto daquele mastodonte pós-moderno (parece um monte de caixinhas de comida chinesa, empilhadas) mostra a força da grana e o mau gosto de alguns arquitetos!

A conferência foi aberta em grande estilo, com direito à presença do vice-presidente de Taiwan, do prefeito de Taipei e muitas outras autoridades, incluindo os presidentes da Icograda, ICSID e IFI. Tudo em um teatro ocupado por 3 mil pessoas de mais de 50 países. O tema do evento, "Designat the Edges", me pareceu muito adequado ao momento atual, às oportunidades que se abrem para o design, e também superafinado com minhas apostas para o futuro da nossa profissão, uma vez que trazia para a mesa a dimensão da multidisciplinaridade do design. Os keynotes speakers eram de áreas diferentes: "Economic Development", por Mr Esko Aho; "The Internet", com Mr Barry Lan;"Biotechnology", abordada por Ms Vandana Shiva; "Internacional Migration", com Mr Bob Elton.

Em cada uma das cinco grandes palestras da parte da manhã, três palestrantes eram convidados para debater o tema apresentado. Fui convidado para participar do tema "Urbanismo". Confesso que em um ão entendi a razão, mas depois achei que fez sentido.

Acima, flagrante do debate após a palestra de Fred Gelli no Design Salon

Peter Bishop, arquiteto inglês responsável pelo projeto de revisão urbana de Londres para os Jogos Olímpicos de 2012 foi o key speaker. Ele mostrou a importância da flexibilidade e da imprevisibilidade no crescimento das cidades e de como é fundamental garantir espaço para as transformações orgânicas que as cidades demandam. Eu tentei contribuir trazendo uma perspectiva biomimética para a discussão. Falei que, no fundo, as cidades são ecossistemas e, como tais, a base do sucesso das mesmas depende de relações onde todos ganham, como acontece nos bancos de corais ou nas florestas tropicais. Acho que funcionou e, como sempre, a abordagem de buscar inspiração na natureza para os nossos grandes desafios criativos deixa as pessoas com a sensação de estarem vendo algo de vanguarda, mas ao mesmo tempo de uma total obviedade, pois, de alguma forma, é um conhecimento que todos

À tarde, participei do Design Saloon, onde cada um dos três palestrantes da manhã apresentavam seus trabalhos em 25 minutos, deixando os 20 minutos finais para um debate com o público. Dois eram Michael Murphy e Marco Steinberg, arquitetos, respectivamente, dos EUA e Finlândia. Michael tem um trabalho muito especial, desenha e constrói hospitais e escolas na África. Prédios de baixo custo, que utiliza materiais e tecnologias alternativas, assim como mão de obra local. O resultado é brilhante e efetivo. Enquanto o custo denós temos. É intuitiva.

À tarde, participei do Design Saloon, onde cada um dos três palestrantes da manhã apresentavam seus trabalhos em 25 minutos, deixando os 20 minutos finais para um debate com o público. Dois eram Michael Murphy e Marco Steinberg, arquitetos, respectivamente, dos EUA e Finlândia. Michael tem um trabalho muito especial, desenha e constrói hospitais e escolas na África. Prédios de baixo custo, que utiliza materiais e tecnologias alternativas, assim como mão de obra local. O resultado é brilhante e efetivo. Enquanto o custo de um leito em um hospital construído por ele sai por U$ 35.000,00 nos EUA, esse custo salta para U$ 3.000.000,00. Cem vezes mais!

Acima, etapas da embalagem de um docinho de feijão. Baixo impacto ambiental e alto impacto sensorial

Marco lidera um projeto em uma agência financiada por fundos governamentais e privados, que busca um modelo de cidade sustentável. Ele trabalha na transformação de um quarteirão em Helsinque com todas as providências necessárias para viabilizar uma cidade sustentável. Energia, transporte, lixo, compartilhamento de espaços estão no centro do trabalho, que começa a ser prototipado no início do ano que vem.

Acima, prédio high tech em Tóquio com inspiração nas técnicas ancestrais de uso do bambu

Apresentei o case do "Desenvolvimento da Marca Olímpica", ainda no tema Urbanismo. Nas perguntas e considerações, vimos que o que sobressai é o fato das pessoas enxergarem na marca nossa energia, nossa diversidade e nossa disposição para realmente transformar a cidade!

Reforcei que minha presença em um painel sobre Urbanismo tinha a ver com o fato que, para darmos conta do enorme desafio criativo que temos pela frente, deveremos somar esforços e conhecimento. E nós, designers, teremos um papel decisivo nesse processo, pois sabemos intuitivamente como colar saberes, atrair e juntar pessoas de diferentes áreas.

No evento, encontramos pessoas muito especiais, como Min Wang, diretor da principal Escola de Design da China e responsável por toda a direção de design dos Jogos de Pequim, em 2008. Combinamos manter contato, e ele me convidou para ir a Pequim conhecer os bastidores do processo criativo que lidera.

Bruno Porto, designer que me recebeu de forma incrível em Xangai, apresentou um painel sobre o dingbats no Brasil. Depois, emendou uns free days no Japão e me apresentou alguns dos representantes da Icograda, com quem teve contato em outros eventos mundo afora.

Dan Formosa, fundador da Smart Design, e Hartmurt Hessilinger, da Frog, foram outras cabeças com as quais tivemos a oportunidade de tomar a boa cerveja Asahai em alguns dos eventos oficiais (uns melhores do que os outros!) e que ocuparam nossas três noites em Taipei.

De um modo geral, minha avaliação do evento foi muito positiva, especialmente pela proposta de trazer para a mesa discussões que ampliaram radicalmente as dimensões usuais nos eventos de design. Uma keynote, como Ms. Vandana Shiva, falando de Biotecnologia, ou ainda Mr. Esk Aho, ex-primeiro ministro da Finlândia, falando de Economia, me parece abrir espaço para um universo de novas oportunidades muito inspiradoras para utilizarmos toda a nossa capacidade criativa e de articulação.

Tóquio

E a viagem continua! O primeiro contato com a cidade foi um pouco estranho quando soube que no hotel não havia wi-fi disponível, nem na recepção... hem? Sem internet em uma das cidades mais high tech do mundo? Como assim? Pois é, nem nas Starbucks em Tóquio o wi-fi é free! Acabei tendo de filar uma conexão em uma Apple Store!

Os contrastes entre o high tech e o low tech estavam só começando em nosso curto, porém inspirador, mergulho no mundo japonês! Os táxis são todos da marca Toyota com cara de Corcel II, encostos de cabeça rendados e as combinações de cores na lataria das mais inusitadas – verde-água com faixa quadriculada azul e cinza, mostarda com faixa laranja! Todos com cara de match box, impecavelmente limpos e sem um arranhão. A foto de um deles acabou no meu descanso de tela do celular!

Povo cordial, aparentemente um pouco ingênuo e muito formal: pedimos informações na rua para as pessoas que não falavam quase nada de inglês, mas que, ainda assim, se esforçavam ao máximo para nos ajudar, usando seus GPS nos iPhones, ou ainda nos pegando pelo braço e nos deixando na porta dos lugares.

A experiência de compra variava das "performances" da 25 de Março, com meninas de voz esganiçada, "supostamente" anunciando as ofertas das lojas de eletrodomésticos; em Shinjuku, até as lojas mais sofisticadas de Guinza, com os projetos arquitetônicos mais incríveis, como a clássica loja da Prada (presente em dez entre dez livros de Retail Experience) e que de perto é ainda mais surpreendente; ou ainda a loja da nova marca do Issey Miyake, com uma linha de roupas planificadas, absolutamente geniais, com inspiração biomimética (sequência de Fibonacci) chamada 1, 2, 3, 5.

Nas ruas, você não encontra lixeiras facilmente, isto porque administrar o lixo deve ser uma tarefa individual, o que aumenta a consciência da população e reduz os custos para o Estado.

Tivemos a sorte de estarmos em Tóquio no fim de semana do Halloween, e assistirmos a um verdadeiro carnaval de rua em Shibuya, com milhares de pessoas fantasiadas de tudo o que se possa imaginar. De Smurfs, super-heróis, às indefectíveis fantasias de personagens dos mangás, verdadeira mania nacional! As filas das Familys Marktes, rede de lojas espalhadas por toda a Ásia, eram verdadeiras experiências surreais, com pessoas de todo o mundo festejando de uma maneira leve e muito, muito divertida!

Kyoto, momento emoção

Bom, na sequência, uma viagem no tempo, na história do Japão e na minha história. A antiga capital do Império (até 1869), que eu chamava de Paraty japonesa, é simplesmente incrível!

Passamos apenas um dia e uma noite por lá, mas foi suficiente para provocar em mim uma sequência de sensações difíceis de explicar!

Kyoto tem alguns dos templos e palácios mais importantes do Japão, com sua arquitetura clássica e seus jardins cuidados à perfeição.

O conjunto, para mim, é o que mais se aproxima de uma visão do paraíso (feito pelo homem) na Terra!

Os espaços, o uso dos materiais, a escala humana com pé-direito baixo e os tatames no chão, sem móveis, a harmonia nos ornamentos, a maneira como os prédios interagem com a natureza e com os jardins integrados no ambiente, o bambu por toda a parte, usado com poesia, a madeira, a palha, a água sempre presente... Isto tudo somado à experiência de andar nas ruelas em volta dos templos com suas lojinhas de iguarias de todos os tipos, de sushis, biscoitinhos e bolinhos de feijão, passando por leques produzidos do mesmo jeito há centenas de anos, tudo embalado de forma precisa, mínima e, simplesmente, linda.

Nesta hora, vivendo esta experiência em um dia lindo de céu azul e temperatura perfeita, eu viajei no tempo... No tempo em que com 18 anos, no primeiro ano da faculdade, tive contato com um livro de embalagens tradicionais japonesas. Ver a maneira como os materiais naturais, folhas, palha, madeira e o próprio bambu eram combinados com maestria para embalar alimentos, bebidas e outros produtos típicos do Japão aquela infindável inspiração tão profundamente entranhada em mim! O Bruno achou que eu estava passando mal, pois de fato eu fiquei emocionado com o contato direto com o que, de alguma forma, deu origem a todo o meu caminho profissional. Os primeiros produtos da Tátil, embalagens, pastas, objetos para mesa, todos feitos com materiais reciclados, amarrados e não colados, com desenhos mínimos, que buscavam as formas que os materiais queriam ter, foram fruto direto dessa estética e "filosofia" que eu estava, pela primeira vez, tendo um contato tão direto e intenso!

Detalhe de banca de comida em Kioto: a poesia da experiência de compra

A sensação era e é meio desconcertante, pois de fato havia visto apenas um livro, algumas imagens, não um mergulho profundo na época, mas o suficiente para despertar em mim uma conexão com essa forma de ver e fazer design que acabaram me trazendo até aqui. E, hoje, mais de 23 anos depois, me sinto tão emocionado e impactado por essa beleza, por essa harmonia e equilíbrio, como quando era apenas um garoto interessado na maneira como a natureza embalava as coisas. Acho que, no fundo, os japoneses sempre foram mestres em biomimética. Sempre souberam ler a natureza e suas soluções de uma maneira única.

O jeito como embrulham um doce em uma folha de bananeira é quase como o jeito com que a própria natureza protege uma semente. No fundo, acho que acabei esbarrando com essas duas fontes de inspiração ao mesmo tempo. E, hoje, a sensação que tenho é a de uma intimidade com todo esse universo estético desproporcional ao meu real contato e conhecimento nesse tempo todo. Quase como se eu já tivesse vivido lá. No meio daqueles bambuzais.

Tive vontade enorme de ficar, de fazer um estágio, sei lá... de conviver com aqueles mestres e sua maneira de ver o mundo. Em uma lojinha de produtos de bambu, com uma foto do senhor Lin, um dos que melhor trabalham o material por ali, tive vontade de levar tudo comigo. Dos pequenos animais feitos com graça até os pincéis feitos com bambu especialmente para pintar "folhas de bambu", material reverenciado pelo povo japonês pela flexibilidade e resistência. Saindo de lá, entramos em um pequeno restaurante que, do lado de fora, tinha um pequeno lago na porta, com água cristalina e carpas vermelhas nadando. A senhora nos serviu um chá, seguido de uma sopa de missô com legumes e noodles, tudo mínimo e lindo, simples e profundo, como tudo que mora na cultura japonesa.

O mais desconcertante era ver toda essa estética aplicada em milhares de produtos produzidos em grande escala. Em todas as estações de trem, milhares de refeições são embaladas em folhas, caixas de papel, embrulhos mínimos e elegantes. Nas prateleiras das lojas de conveniência, são milhares de embalagens de biscoitos, xampus etc., que representam esse design único feito por lá. Ao mesmo tempo, nos mesmos lugares, existem as revistas com fotos de adolescentes seminuas, capas com alta densidade de caracteres com cor de chiclete. Nas ruas, vemos o excesso de luminosos, a overdose de propaganda por todos os lados.

Difícil entender como eles convivem com estes dois lados de uma mesma moeda. Como um lugar onde o jardim zen foi inventado, com sua atmosfera paradisíaca, também pode ser o berço do Patchinco, mania nacional espalhada pelas esquinas de Tóquio? Jogos do tipo fliperama, com milhares de bolinhas metálicas que ficam circulando dentro de máquinas coloridas "piscantes", produzindo um barulho insuportável. Isso tudo em um ambiente onde é permitido fumar! Dá pra imaginar? Para mim, é a visão do inferno!

Difícil entender... Acho que terão de haver mais algumas idas à "Terra do Sol Nascente" para conseguir alcançar a complexidade desse povo tão sutil e profundo, que, em minha opinião, sabe, como ninguém, combinar corpo e alma em tudo o que faz.

 

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